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Lenda do Magriço

ÁLVARO GONÇALVES COUTINHO, 
O MAGRIÇO. ESPARSOS DA SUA HISTÓRIA.

Uma deliciosa e antiga tradição que perde a sua origem na bruma dos tempos aponta o castelo de Penedono como local do nascimento do cavaleiro Álvaro Gonçalves Coutinho, o magriço.
Álvaro Gonçalves Coutinho era filho segundo de Gonçalo Vasques Coutinho e de Leonor Gonçalves Azevedo. Corria-lhe nas veias o sangue prestigioso de uma das famílias mais importantes de Portugal dos séculos XIV e XV. Pertenceu à terceira geração da linhagem dos Coutinhos. Como nos conta Fernão Lopes, Álvaro Coutinho era neto de um “mui honrado cavaleiro que se chamou Vasco Fernandes Coutinho e foy tão grande e tão honrado que partiu com hum infante irmao d’elrey e el-rey o favoreceo e lhe deo u nhu dia sinco castellos”.
Mas nem sempre a vida dos Coutinhos foi assim tão favorecida. Vasco Fernandes Coutinho não viveu tempos fáceis até ao início das guerras fernandinas, pois era um filho secundogénito e por isso não teve acesso à herança de seu pai, Fernão Martins da Fonseca. Mas foram as ligações de seu pai e seu tio à corte, principalmente à figura de D. Pedro I, então ainda infante, que lhe permitiu estar ao serviço real, como escudeiro cerca do ano de 1360. No paço real conseguiu contrair um matrimónio que estrategicamente lhe permitiu ascender socialmente, mas foi a sua enérgica capacidade militar que lhe permitiu vingar na corte do rei.
Inicialmente, por razões matrimoniais, Vasco Fernandes Coutinho deslocou-se da Beira para o Alentejo, mas regressaria à Beira por razões militares.
Entre 1361 e 1365 nasceu, em Penedono, o seu primogénito, Gonçalo Vasques Coutinho, que viria a ser progenitor do Magriço.
Apoiante do rei D. Fernando I, Vasco Fernandes Coutinho havia conseguido reunir e acumular um interessante património fundiário na Beira, a que somou os direitos e as prerrogativas concedidas. Contudo, não conseguiu consolidar a posição social da linhagem, algo que faria o seu filho.
Gonçalo Vasques Coutinho sucedeu, em 1383-1384, a seu pai na chefia da linhagem, mas continuou a beneficiar da importante posição matriarcal que sua mãe, D. Beatriz Gonçalves Moura revelou possuir como conscienciosa conselheira familiar. O cronista Gomes Eanes de Zurara quis mesmo que soubéssemos que em 1418, data do falecimento de D. Beatriz, as exéquias foram ao nível de um acontecimento de Estado.
Gonçalo Vasques Coutinho cresceu e recebeu uma forte instrução militar, e a sua infâmia e juventude coincidiram com momentos de grande conturbação do reino, caracterizadas pelas guerras fernandinas e pela indecisão do futuro do reino.
O seu desempenho militar valeu-lhe as nomeações como alcaide de importantes castelos e vilas fortificadas, como a importante alcaidaria de Trancoso. Aliás foi ao serviço do rei de Portugal que Gonçalo Coutinho comandou as tropas portuguesas à vitória, na manhã de 29 de Maio de 1385, na famosa batalha de Trancoso.
Aos frutos do seu excepcional desempenho militar, que o levou a ser nomeado Marechal do Reino e Fronteiro, associou o seu matrimónio com Leonor Gonçalves Azevedo, filha do primeiro Marechal do Reino, Gonçalo Vasques de Azevedo.
Dos quatro filhos do seu primeiro casamento, teve dois que se tornaram afamados: Vasco Gonçalves Coutinho que viria a tornar-se no primeiro conde de Marialva e Álvaro Gonçalves Coutinho, o magriço. Álvaro terá nascido, com grande probabilidade nos últimos quinze anos do século XIV.
A sua alcunha, ainda que fosse muito comum no século XV, parece mostrar que Álvaro Coutinho seria muito conhecido no seu meio pelo seu retrato físico magro, franzino. Algumas fontes literárias chegam mesmo a apresenta-lo como possuidor de uma certa hipertricose, o que justificaria alguma vergonha da sua parte.
Álvaro Gonçalves Coutinho, o magriço, recebeu a melhor instrução e educação que poderia ser ministrada a um jovem nobre no século XIV.
Foi educado para servir e ser completamente obediente ao rei e ao seu pai, mas o jovem também aprendeu o ofício do pai, tal como ordenavam os preceitos bíblicos, da mesma forma que Jesus Cristo aprendeu o ofício de seu pai. A educação dividia-se entre a instrução militar e a educação da Fé, e certamente não foram descuradas. Álvaro nasceu e cresceu num espaço senhorial, onde se respirava um forte atmosfera militar. Os pilares da instrução eram basicamente a equitação, a caça e o manejamento de armas.
Por volta dos 15 a 17 anos ocorria a chegada à corte, ainda que os filhos da fidalguia de sangue mais ilustre pudessem frequentar a corte desde tenra idade.
Após a rectificação do acordo de Paz entre Portugal e Castela em 1401, D. João I, rei de Portugal, reformou a corte e casa real nos anos seguintes. Nesse momento, Gonçalo Vasques Coutinho cuidou ser a melhor ocasião para aí colocar os seus filhos mais velhos, Vasco e Álvaro, com vista a conseguir-lhes boas alianças matrimoniais.
Assim, Álvaro Gonçalves Coutinho passou a integrar a elite de cavaleiros do rei, morador no paço real, figurando entre os “vijnte grandes que hij ham damdar contynuadamente”, conforme constava da chancelaria do rei. Todavia, a almejada convivência e morada na corte de D. João I não foi, ao que parece, nem muito vantajosa, nem pacífica. De acordo com o Nobiliário das Famílias de Portugal de D. António de Lima Pereira, Álvaro viveu um amor proibido, enamorando-se por uma donzela, Isabel de Castro, filha de D. Pedro Castro, senhor do Cadaval.
Ao que parece, a família Castro não foi a favor da convivência entre Isabel e Álvaro, opondo-se veementemente à possibilidade de um matrimónio. Por razões ignoradas, a isto também foi contra o próprio rei. Álvaro Coutinho não respeitou a oposição da família, nem do rei e, segundo o nobiliário, terá mesmo violentado a donzela, forçando-a depois a casar.
Como o rei fora contrário a tudo isto, Álvaro Gonçalves caíra em desgraça perante D. João I, que mandou Isabel entrar em vida claustral, no mosteiro de Santa Clara de Lisboa. O Magriço, contrariando a vontade do seu rei e a oposição dos Castro, cavalgou para Lisboa, rumo ao mosteiro onde professava Isabel de Castro, onde ” a veio tomar com o mandar dizer pro a ElRei como lhe tinha prometido E a levou por mar, cuidando ElRei que a levava por terra”.
Dizem as crónicas que Isabel de Castro casou com Álvaro Gonçalves Coutinho, de quem não teve descendência, e que casou em segundas núpcias com Diogo Lopes de Sousa, filho do mestre da Ordem de Cristo.
Efectivamente, os estudos mais recentes sobre a família dos Coutinhos vieram mostrar que, por alguma adversidade, Álvaro Coutinho não veio a casar com Isabel Castro, já que no ano de 1418 ela se encontrava encerrada no mosteiro de Santa Clara, em Lisboa. Também, até ao momento, nada se encontrou que atestasse o rapto de Isabel de Castro, aliás, como demonstra o professor Luís Oliveira, as crónicas nobiliárquicas confundiram Isabel de Castro, freira clarissa, com uma outra dama, sua homónima, esposa de Diogo Lopes de Sousa, já que ambas se documentam para a mesma época.
Outro autor, Cristóvão Alão Moraes, conta um outro episódio violento que se atribui ao Magriço, em que teria assassinado à punhalada um porteiro de câmara do rei D. Duarte. Tal episódio parece-nos muito inverosímil, já que não seria possível ter ocorrido, pelo facto do autor afirmar que tal teria sucedido, “sendo mancebo” o Magriço.
Caído em desgraça régia, Álvaro Coutinho procurou reabilitar a sua posição perante a sua família e o seu rei, expiando seus males e desaires por terras estrangeiras.
Em 1411, Álvaro Coutinho encontrava-se ao serviço de João Sem Medo, duque da Borgonha, que possuía uma das maiores, mais reputadas e extravagantes cortes da Europa do século XV.

Álvaro Gonçalves Coutinho por Terras da Borgonha.

A documentação borgonhesa certifica a presença de Álvaro Gonçalves Coutinho na corte da Borgonha a partir de 1411. A corte da Borgonha era uma das maiores, mais reputadas e extravagantes cortes da Europa.
Álvaro terá chegado a estas partes integrado numa embaixada portuguesa enviado por D. Duarte, a João Sem Medo, duque da Borgonha, levando-lhe homens-de-armas.
Álvaro Gonçalves Coutinho participou activamente na guerra civil entre Borgonheses e Armagnacs, onde prestou bons, notáveis e agradáveis serviços, principalmente, no cerco de Paris, nos combates junto à Capela de Saint-Denis e em Saint-Cloud. João Sem Medo fê-lo camareiro, após 3 de Outubro de 1411 e, nessa posição mais privilegiada, intermediou a negociação de um tratado comercial muito favorável aos mercadores e navegadores portugueses.
A sua entrega ao serviço militar borgonhês foi grande; as batalhas foram muito exigentes e, durante o ano de 1417, os combates travados pelos borgonheses foram duríssimos, sendo que num deles, Álvaro Coutinho foi feito prisioneiro pelos Armagnacs. Foi roubado, despojado e enclausurado no cárcere do castelo de Carcassonne onde esteve ainda muito tempo até ao seu resgate ser pago.
Nos finais de Abril de 1418, Álvaro Coutinho encontrava-se em liberdade e ao serviço do duque da Borgonha.
Para além das participações militares, Álvaro Gonçalves Coutinho também se envolveu em combates de cariz festivo e cavaleiresco, pelo menos por duas vezes; antes da Primavera de 1415. O primeiro combate realizou-se antes de 21 de Fevereiro de 1415, na localidade de Bar-le-Duc, em sistema de teia ou champ clos, isto é, um campo fechado, construído para a realização de torneios.
Na primeira justa, Álvaro Coutinho enfrentou um importante chefe militar francês, o almirante da França, Pierre de Brabante, o Clugnet, sob o olhar de Eduardo III, duque de Bar. A descrição desse combate está presente nas principais crónicas francesas do século XV. Como crónica de Jean Le Fèvre de Saint-Remy – Chronique de Jean Le Fèvre, Seigneur de Sainte-Remy – por ser considerada entre todas a mais completa e fiável. Além disso é, verdadeiramente, admirável.
Findadas as justas em Bar-le-Duc, Álvaro Coutinho e outros cavaleiros portugueses rumaram a Paris. Aí, outras justas e combates, a pé e a cavalo, realizaram-se na sequência da conclusão do tratado de paz entre Borgonheses e Armagnacs. Desses torneios, realizados em Paris, entre cavaleiros portugueses e franceses, Álvaro Coutinho participou num, ou melhor, apenas se possui, até ao momento, documentação que atesta indubitavelmente a presença de Álvaro Gonçalves Coutinho num desses combates.
O combate teve lugar fora de Paris, em Saint-Ouen, num dos albergues do rei, situado entre Saint-Denis e Montmartre. Le Fèvre afirma que Álvaro Coutinho, ali, verdadeiramente adquiriu, não obstante a sua recompensa, grande honra nesse dia.
Em 25 de Outubro de 1415, as tropas francesas defrontaram o exército inglês numa das batalhas mais famosas da História – a batalha de Azincourt. Se nada certifica a presença de Álvaro Gonçalves Coutinho em Azincourt, é certo que se manteve ao serviço de João Sem Medo, tendo-lhe prestado serviço militar no recrudescimento da guerra entre Borgonheses e Armagnacs.
Álvaro Coutinho recebeu por várias vezes, diversos dons, isto é pagamento de quantias monetárias como soldada de serviços prestados ou como pagamento dos serviços prestados ou ainda como embolso de equipamento.
A 6 de Outubro de 1418, o duque da Borgonha reuniu com o seu conselho, com o rei Carlos VI de França e o conselho régio. Entre os assuntos tratados nesse dia esteve o reconhecimento dos serviços de Álvaro Coutinho e a atribuição de um avultado dom de mil libras.
Ainda se documenta a presença de Álvaro Coutinho no ducado da Borgonha em Fevereiro de 1419.
A partir desse mês, em data incerta, Álvaro Gonçalves Coutinho regressa a Portugal após praticamente duas décadas ao serviço do Ducado da Borgonha. Talvez tivesse partido com a embaixada portuguesa que, no final do inverno ou pelos princípios da Primavera de 1419, saiu da Borgonha rumando a Portugal.
Em 1425, Álvaro Coutinho estava no Porto.
Nesse ano, disputou a posse da Quinta de Vale de Amor, no termo desse concelho com o de Gaia. Quis, porém, o rei D. João I que Álvaro, respeitando as antigas leis do foral abandonasse a referida quinta, muito talvez pelos danos que causava aos pescadores e lavradores.
Álvaro Gonçalves Coutinho, o magriço, foi um cavaleiro português de raízes beirãs, de figura franzina, mas de forte carácter, bravura e coragem. Assim o consideravam, os seus contemporâneos. À sombra dos castelos senhoreados pela sua família, brincou, cresceu e aprendeu, treinando as manobras militares indispensáveis ao exercício da cavalaria e ao cumprimento do dever. Contudo, como filho segundo do chefe da linhagem, a sua vida esteve longe de ser fácil.
No espaço e no património da sua linhagem, Álvaro Coutinho nunca conseguiu sobressair como um grande senhor, possuidor de vastos domínios ou numerosas herdades. Mesmo sem conhecermos o paradeiro do seu tombo de propriedades, acreditamos que Álvaro nunca teria possuído grandes propriedades, pelo facto de o encontrarmos a partilhar o usufruto de algumas propriedades dominiais com o seu pai e partilhar os paços residenciais da sua família. A sua corte senhorial era modesta, conhecendo-se poucos servidores que se desdobrariam em trabalhos, servindo o Magriço de noite e de dia.
De todas as honras e reconhecimentos devidos e merecidos, as que mais ecoaram foram as que alcançou nas justas em que participou, que os cronistas, detentores do poder da memória escrita, imortalizaram.
Perante os adversários, Álvaro Coutinho mesmo quando não alcançou a vitória, foi reconhecido como o mais valente, o mais bravo e corajoso dos cavaleiros.
O Magriço cumpriu bem e direitamente o ofício da cavalaria, de forma leal, ao duque da Borgonha, ao rei e reino de Portugal.
(este texto síntese foi redigido a partir da obra do mesmo autor, pelo que não se inclui bibliografia, pelo facto da mesma estar aí presente. Para consulta de bibliografia e fontes, consultar a obra: João Ferreira da Fonseca, Álvaro Gonçalves Coutinho, o cavaleiro e o seu tempo. Por terras da Borgonha. Penedono, 2012.)